# 12

Janeiro | Dezembro 2015



Neste número:


Evocação: «A noite lavava as sombras», de Muhammad Ibn ‘Abbâd al-Mu’tamid

Voz Levantada * Poemas e nota biográfica de Paulo Barbosa

Da vida, como nuvem aquário candeia * Poemas e nota biográfica de Mariana Basílio


Dez Poemas de Li Bai * Selecção, apresentação e comentários por Ricardo M. Marques


Evocação: «A noite lavava as sombras», de Muhammad Ibn ‘Abbâd al-Mu’tamid


A noite lavava as sombras
Das suas pálpebras com a aurora.
Ligeira corria a brisa.
E bebemos! Um vinho velho cor de rubi,
Denso de aroma e de corpo suave




Voz Levantada * Poemas e nota biográfica de Paulo Barbosa


Paulo Barbosa nasceu em Coimbra em Junho de 1974. Estudou jornalismo na Universidade de Coimbra e edição de texto na Universidade Nova de Lisboa. Jornalista profissional desde 1998, viveu uma década em Lisboa e reside actualmente em Macau. Publicou O Centauro em edição pirata (Rascunho, 98) e é co-autor do Diário de Coimbra (Poesia Fã Clube, 2014) – com Ricardo M. Marques; ler deste autor em Inefável # 12. Vários poemas seus foram incluídos em compilações e fanzines, com destaque para os textos insertos no número de Junho de 2002 da revista Oficina de Poesia. É autor do blogue Contemplando o Jazz.
O autor e o editor escolheram para esta breve recolha alguns poemas do Diário de Coimbra - «30», «Coimbra II», «uma impossibilidade» e «buraco» -, dando ainda a ler dois poemas inéditos.




30

Os poetas são os que arranjam expressão adequada para as coisas
Eu de volta ao sítio de onde, em tempos, minha voz se levantou
de regresso ao “inferninho de merda” de Herberto Helder
dispensando as putas do Terreiro da Erva
mas também gemendo por um pouco de paraíso
um “parêntese paradisíaco”!
um pedaço de alegria que seja nesta terra queimada
onde os únicos lugares ainda possíveis
são as esplanadas desertas e os bancos dos jardins
nos quais, tal como Herberto, leio “os autores legíveis”
e planeio fugas, observando o passar das estações


·


Coimbra II

Coimbra fede a mofo e a batina
Coimbra Porta Férrea ferrugenta
Coimbra metes nojo estudantina
Coimbra dos doutores salazarenta
Coimbra lá no fado pasmada
Coimbra vetusta Cabra atrasada
Coimbra eferreá eferreí
Coimbra xiribitátátátá
Coimbra, adoro praguejar! Coimbra…


·


uma impossibilidade

um horizonte límpido
uma folha em branco
um dia sem trânsito ou usura
uma impossibilidade


·


buraco

Arranje-me um buraco
ficar-lhe ia eternamente grato
se me arranjasse um buraco
pode ser daqueles pequenos
dois metros quadrados, mais não
dispenso a janela, o ponto de fuga
basta uma arrecadação
cave ou sub-cave
secretária plastificada
monitor sem filtro
e um banquinho de cozinha
Arranje-me um buraco
ficar-lhe-ia eternamente grato
ocupo pouco espaço
sou pessoa de bom trato
venho a recibo verde
é barato, nem precisa de contrato
e, prometo
dou conta do mandato
sem cobrar extraordinárias


·


Poemas do Japão

Se pudesse
levava as rosas primaveris do botânico para ti
levava o som da água pura
que corre, ao fundo, no riacho
o crocitar dos corvos
a flor branca do corniso
levava as preces dos templos zen
a sabedoria dos haikus
Mas trazer-te tudo isto de Quioto
seria ainda pouco




A Ilha dos Amores, mas pervertida

De punho erguido no D2
beatíficos, tínhamos alcançado
a utopia de Camões
das naves, os terceiros argonautas
acham a Ilha dos Amores pervertida
numa frescura tal onde ledas
e francamente corrompidas
se fazem desejadas as sereias
“Do belo corpo estavam confiadas
posta a artificiosa formosura
nuas se deixam levar na água pura…
Melhor é experimentá-lo do que julgá-lo
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo”




Da vida, como nuvem aquário candeia * Poemas e nota biográfica de Mariana Basílio


Mariana Basílio é autora de Nepente, reunião dos poemas primeiros da poeta, publicado  pela Giostri Editora, de São Paulo (2015). Atualmente, se dedica a escrita do segundo livro, sombras & luzes, obra dedicada ao poeta Herberto Helder. Tem poemas publicados em revistas como a portuguesa Efémera e a brasileira Subversa. Seus versos são inspirados em poetas como William Blake, Percy Shelley, Walt Whitman, o próprio Herberto, Ruy Belo, Luiza Neto Jorge e Hilda Hilst.
Publicamos aqui, ainda inéditos, cinco poemas da autora, sendo que «XI» e «XII» integram o seu livro de partida e os restantes o seu segundo título.




XI


A saudade engole a gente, menina.
Não adianta banhar-se em flores,
esconder-se no canto cadente,
sob a fome e o frio.
A saudade engole as gotas de orvalho,
desprendidas, perecíveis
e lança-nos à um precipício
fúnebre e cálido,
feito das sombras
de toda vossa carne.
A saudade engole nossos poros,
e rodopia rodopia rodopia
nas raízes, nos néctares
de pêssegos e passas.


·


XII

À noite, sob a voraz sombra do Tempo
caminho ao jardim das cerejeiras.
Junto a velha aurora,
balança em  folhas  amarelas
o meu caminho,
com braços esparsos às ceias.
Alago-me e alargo os olhos,
a vista vasta, vívida,
 em preces, me desfaço.
É que o amor me foi libertado,
como uma canção
nunca cantada,
o amor que um dia me foi negado,
como uma verdade,
branca e afiada,
fincado.


·


Em uma maneira de dizer-te, canto

Em uma maneira de dizer-te, canto.
Canto aos teus retratos. Canto.
Entre bordados e pequenas lascas.
Canto. A dizer-te o inexprimível, por
arbóreos segredos, a dizer-te.
Para ser-te amada, em uma maneira
de canto. Ser-te.


Aos anos, paisagens. Aos anos, ser-te.
Mesmo que eu morra às manhãs, por
luzes e frutos de tua boca-pêssego.


Em uma maneira de dizer-te, canto.
Dizer-te o que nunca houvesse dito
dizer-te o que aflige as têmporas.
O oco dos poços são as cidades,
o feitiço do tempo os nossos receios.
Dizer-te, digo.


Mesmo que para isso eu seja
menos verdade e mais ensejo.
Dizer-te segredos. Dizer-te.
Para ser-te amada.
Em uma maneira de dizer-te.
Desejo.


·


Um poema em detalhes

O céu é um mar inesgotável que flutua no silêncio.
Palavras, passageiras do húmus de nossos feitos.
Vivos. Somos os vivos, na atmosfera de reticências,
que só a água liberta por buracos de silêncio, porque
só à ela é ofertada a propriedade que incendeia.
 À tudo e a todos, reticências.
As perguntas palavras, os astros rareias.
Árvores como extraordinários seres
a existir dentro de minhas veias.
À tudo e a todos, reticências.


Da vida, como nuvem aquário candeia –
estimável é não enxergarmos paredes.
Porque tudo é puro e pasto,
que  se pisa e se apossa
no úmido rebento
e nos clareia.


·


É preciso criar-se o instante

Amar-te. Porque é precioso criar-se do instante
os novos caminhos, andarilhos frutíferos
aguados por teus pés de vento, é precioso.
- e andem os remos, e andem os mares!
Porque é preciso criar-se do instante estes pássaros
que sobrevoam os teus ombros e fazem-me sendas,
nos buracos de sedas aos cedros – em voos perenes.


Por amor, vi em todo o céu a aventura dos retalhos
de carmim. A coragem fundia-se no mel dos olhos,
a colidir-me em montanhas de fel, a escalar-me por
feixes de luz. Por amor.


Os laranjais da saudade, percorriam-me em loucura
nos rios mansos eu nadava nua, atravessando os amados,
sendo faces sendo crua como a epiderme do sol.
Em laranjais, que apalpei dedos cheirosos, como
libélulas sagradas: líquidos de sopros a supor
salvar-nos dos pecados – eram sucos frescos tua aura.
Esculpiam-nos o ventre com venturosos figos, comiam-nos
- eram amargas as doçuras, era o todo uma passagem.
- e andem os remos, e andem os mares!


E mesmo se a noite se tornar dia, mesmo se os olhos
se tornarem boca, mesmo se a chuva se tornar orvalho,
mesmo se os homens se tornarem barcos, mesmo se o temor
se tornar oferenda,  e o mundo tornar-se passado: Amar-te-ei,
porque é preciso criar-se  o instante – é precioso este instante.




Dez Poemas de Li Bai * Selecção, apresentação e comentários por Ricardo M. Marques





Notas sobre o autor


Considerado um dos maiores poetas chineses, Li Bai nasceu em 701 na Ásia Central. Embora existam dúvidas acerca do local exato do seu nascimento, a maior parte das fontes aponta para que terá nascido no que é a atual República do Quirgistão. Este período cronológico, o da dinastia Tang (618-906), também conhecido como o Império do Meio, é, no campo das letras, apelidado de “idade do ouro” da poesia chinesa.
Educado de forma clássica, filho de um mandarim local, cedo se terá demonstrado inconformado com os ditames da sua época. Parte aos dezanove anos para Minshan e enceta uma vida errante, marcada pela filosofia taoista, que o levará a percorrer inúmeras cidades e locais. Casado por quatro vezes, procurou, sem grande sucesso, viver da escrita, oferecendo os seus préstimos a mandarins locais. Contudo, a tendência para a bebida e a sua excentricidade impediram que essa tarefa fosse votada ao sucesso, não obstante ter chegado a ser nomeado secretário redator da Academia Hanlin. Uma das melhores descrições acerca da sua vida pode ser encontrada nesta passagem: “Aloja-se em casa de ricos e pobres, embebeda-se com letrados ou taberneiros, é companheiro de ministros e monges, ama prostitutas e damas de boa linhagem. Mas os seus verdadeiros amigos serão sempre as montanhas e os rios, as nuvens e o luar” (Poemas de Li Bai, António Graça de Abreu,1996).
A guerra civil na China, assim como os constantes conflitos militares transfronteiriços, aliás, bastante patentes na sua obra poética, marcam a vida de Li Bai, vindo a ser incorporado no exército chinês. Preso, acusado de traição, acaba por ser salvo por Guo Zyi, “estranha personagem a quem o poeta salvara a vida há vinte e três anos”, vindo mais tarde a usufruir de uma amnistia. A sua morte, em 762, encontra-se envolta em mistério e romance; contudo presume-se que se terá suicidado, ébrio, mergulhando num lago numa noite de luar.
A natureza, o amor, o vinho, a amizade e a guerra constituem os temas marcantes da poesia de Li Bai (Abreu,1996). Os dez poemas que escolhi, retirados do livro Poemas de Li Bai, edição do Instituto Cultural de Macau (1996), oferecido pelo meu amigo Paulo Barbosa, não procuram ser representativos da sua obra poética. No entanto, torna-se visível a presença de uma poesia híbrida em que o misticismo, a força pulsante da natureza, se mesclam com uma forte consciência e crítica social.




Balada do vento Norte


Nas regiões do norte, a luz débil dos olhos do dragão,
nem Sol, nem Lua alcançam as regiões setentrionais,
apenas o vento Norte desembestado, à solta no céu,
cobre as montanhas de mantos de neve.
Este Inverno a menina não canta, não ri
as sobrancelhas arqueadas de sofrer,
no peitoril da casa, os olhos parados na gente que passa,
o pensamento no esposo, para além da Grande Muralha,
soldado por terras distantes, na estepe inóspita e gelada,
desembainhando o sabre, defendendo a fronteira.
Deixou-lhe a aljava e duas flechas emplumadas brancas,
agora cobertas de teias e pó.
Ela, quase criança, os olhos marejados de lágrimas,
ela sabe, seu bem-amado morto no campo de batalha,
ela lança no fogo, transforma em cinzas as flechas da guerra.
Construindo uma barragem, param-se as águas do rio Amarelo,
mas como suster as lágrimas, tanta mágoa,
quando o vento Norte faz rodopiar a chuva e a neve?


A temática da guerra, bastante presente na poesia de Li Bai, assume neste poema uma das suas inevitáveis consequências – a solidão de quem fica, ou de quem espera, neste caso a (da) jovem esposa  ou a “quase criança” que sofre pelo marido ausente. Ele, “soldado por terras distantes”, defendendo a Grande Muralha, o Império. A inevitabilidade da morte pressentida “ela sabe, seu bem-amado morto no campo de batalha” acompanha o poema. Numa espécie de tentativa de se libertar desse manto (de guerra, de morte) ela lança as flechas oferecidas pelo esposo ao fogo, transformando-as em cinzas. Contudo, a inevitabilidade não desaparece, permanecendo a dúvida enraizada na angústia: os atos dos homens – mesmo os que constroem as barragens que travam o rio Amarelo – não conseguem suster as lágrimas nem os elementos que as mesmas inspiram: “quando o vento Norte faz rodopiar a chuva e a neve?”.



Lavado e perfumado


Se lavas o teu cabelo em água perfumada,
não esfregues o teu chapéu.
Se lavas teu corpo
em água fragante
não sacudas tuas vestes.
O mundo odeia o que é claro e puro,
o homem sábio oculta seu fulgor.
Na margem do rio, um velho pescador.
Eu e ele regressaremos juntos.


A questão da fragilidade da permanência acompanha estes versos breves. Se queres que permaneça não esfregarás o teu chapéu, não esfregarás as tuas vestes. A água, clara e pura, resiste contra um mundo que odeia a pureza. Há que ser sábio. Tendo a consciência do retorno.


A caça


Vive longe, para além das muralhas da cidade.
Suas mãos jamais seguraram um livro,
sabe apenas caçar, é ágil e valente.
Monta um possante cavalo das estepes
e, no Outono, parte orgulhoso à desfilada,
seu chicote dourado roça a neve, estala no ar,
ele grita ao falcão e parte à aventura.
Seu arco, uma meia-lua, jamais falha o alvo,
abate dois grous com uma só flecha.
Quem o vê circular o lago, afasta-se receoso,
sua reputação inspira temor nos confins do deserto.
Para quê envelhecer entre os livros da biblioteca?
Os letrados não valem o bravo nómade da planície.


Um poema de elogio ao homem rude que vive afastado das cidades sobrevivendo apenas das e com as mãos. O caçador. O guerreiro. São a mesma pessoa. A felicidade reside nisso. A temática da virilidade crua do guerreiro asceta, o que “parte à aventura”, que “sabe apenas caçar”, que “é ágil e valente”, acompanha o desenrolar dos versos. A interrogação final: “para quê envelhecer entre os livros da biblioteca?”. A resposta breve, não deixa de ser a negação do ofício daquele escreve. Ou daquele que lê e que entre os livros encontra as suas respostas. Incompletas.


Balada do reparador de injustiças

A sua cimitarra brilha como a neve,
seu cavalo branco, sua cela, recamada a prata,
faísca fogaz como estrela cadente.
Ele chega como o vento,
parte como uma vaga,
mata aqui um homem, mais além um outro.
Percorre, num ápice, dez mil li,
sacode depois o casacão e desaparece,
ninguém sabe para onde
ninguém conhece o seu nome.


O elogio ao guerreiro justiceiro, tal super-herói de capa e espada dos tempos modernos, constrói a utopia de um mundo em que o bem, a justiça, não triunfam. Não é inocente o nome do poema: “Balada do reparador de injustiças”. O cavalo branco, a cela acamada a prata, as aparições fugazes, breves, constroem a noção de um fantasma, de um ser etéreo. A mortandade dos homens que caem apenas salienta a presença de uma realidade social injusta, opressiva e disseminada. O justiceiro, mais uma vez, é um mito do que se deseja, de uma personagem messiânica, não explicitamente de algo (ou alguém) que exista.


Solidão

Sentei-me bebendo.
Não divisei o anoitecer
até que pétalas caídas
encheram as pregas da minha cabaia de seda.
Levantei-me bêbedo
e misturei-me a um regato inundado de luar.
Haviam desaparecido as aves,
eram raros os homens.


Os poemas acerca das virtudes do vinho são uma temática recorrente em Li Bai. O vinho inebriante, festivo, companheiro, também surge neste poema como outra das máscaras da solidão. A solidão (líquida, espessa) acarreta a osmose com a natureza. Também ela solitária.


Mulher de família pobre

Eu tecia o pano para as tuas roupas,
era difícil nossa vida
mas quedávamo-nos unidos.
Depois chegaste a mandarim e procuraste uma mulher mais bonita.
Em teus lábios nem uma palavra,
mas eu conhecia o teu coração
e abandonei a casa.
Agora nada tenho que fazer,
leio histórias tristes,
penso no dia do nosso casamento,
em ti, outrora galante e cortês,
e as lágrimas caem como a chuva.
Eu não sou má esposa
mas recuso habitar teu lar,
cantar e dançar para um homem cansado.
Afasto-me, para muito longe
e deixo-te nenhum rancor.


A mulher está sempre presente em Li Bai. Um dos fascínios na sua obra reside nas tintas verbais com que esta é retratada. Não como algo inatingível, gémea da visão romântica, mas sempre imbuída de uma interessante e forte perspetiva social – a pobreza, a viuvez (causada, muitas vezes, pela guerra), a solidão, esta última permanente. Escrito na primeira pessoa, este poema é, ao mesmo tempo, de recusa. A mulher recusa tornar-se “a outra”, agora que o seu marido triunfou – tornou-se mandarim e pôde escolher uma mulher mais bonita. Não só a outra, ela também se recusa a viver com um homem “cansado”. A abnegação encerra o poema: “afasto-me, para muito longe e deixo-te nenhum rancor”.


Adeus a um amigo

As montanhas verdes
bordejam as muralhas do Norte,
as águas claras
circundam as muralhas do Leste.
Aqui nos despedimos.
Tu serás a erva
estendendo-se por dez mil li.
Pensarei em ti,
acompanhando o voo das nuvens.
Recorda teu velho amigo,
ao Pôr do Sol.
Acenamos um último adeus
e, no momento da partida,
ouve-se apenas o relinchar dos cavalos.


Um poema bastante forte acerca da singularidade da amizade. Dois amigos que se separam cada um na sua direção, cada um no seu destino. Tu, meu amigo, “serás a erva estendendo-se”. Ou seja, serás a distância que enquadra o longe e o perto, o amanhã e o hoje. Montanhas e águas, do Norte ou do Leste. O pensamento de um e do outro estarão num e no outro, como se a separação e a distância não se impusessem. O poema é extremamente pulsante em imagens: apenas o relinchar dos cavalos marca a despedida.


Erva crescendo em árvore ressequida

Um pássaro deixa cair uma semente
ao poisar no galho da árvore ressequida.
É Primavera, a poeira varre a floresta,
a semente enraíza na árvore, a erva cresce.
Nenhuma simpatia une erva e árvore,
mas ambas se ajudam a continuar a vida.
Pergunto, porque são tão diferentes os homens?
Temos as mesmas raízes,
alguns querem possuir tudo
deixando aos outros nada.


Há algo neste poema que nos remete para a filosofia taoista: “a poeira varre”, “a semente enraíza”, “a erva cresce”. A lógica da simplicidade que no seu ser simples enquadra a complexidade: não é necessário existir qualquer tipo de “simpatia” entre os seres, qualquer espécie de elo declarado. Mais do que necessidade de uns para com os outros, complementam-se. Não apenas isso. Existem de uns para os outros porque são o mesmo. A unidade está refletida nos versos: “temos as mesmas raízes”. Contudo, ao contrário da natureza, o que prevalece é o egoísmo e a crueldade dos homens.


Para os meus filhos


No Reino de Wu, as amoreiras cobertas de folhas,
três vezes adormeceram os bichos da seda.
Penso no meu lar
e eu tão longe, navegando pelo rio!
Para quando o meu regresso?
Nos trabalhos da Primavera
quem cultiva agora a terra?
O vento Sul leva meu coração
e deixa-o cair na adega da família,
junto ao pessegueiro
que há três anos plantei
e cujos ramos chegam hoje ao céu.
Tanto tempo eu errando por montes e vales!
Ping Yang, milha filha doce e pequenina
colhendo um braçado de flores,
eu ausente,
e suas lágrimas correndo como água nas fontes.
Bai Jin, meu filho tão menino,
chega apenas ao ombro da irmã,
os dois sozinhos sob o pessegueiro,
quem vos aconchega hoje nos braços?
Triste, perturbado,
o sofrimento devora-me as entranhas.
Tomo um pedaço de seda, escrevo, e mando-vos este poema.
O meu amor corre para vós
como as águas do Grande Rio.


Pessoais e tristes estes versos de Li Bai. Este poema foi escrito em 749, em Nanquim, quando o poeta soube a notícia da morte da mãe das crianças (a sua terceira mulher). Escrevendo sobre e para os seus filhos crianças, órfãos de mãe, o poema transmite não só a tristeza, mas também a impotência de se encontrar afastado “tanto tempo eu errando por montes e vales”. Três anos marcam essa ausência: “três vezes adormeceram os bichos da seda”, “o vento Sul leva o meu coração (…) junto ao pessegueiro que há três anos plantei”. No cenário triste, de sofrimento, o poema enviado surge como o mensageiro, como a extensão de uns braços ausentes. Mais do que isso, “como as águas do Grande Rio” “o meu amor corre para vós”.


Transparência

A vida é apenas um breve viajar,
a morte, o regresso à eterna morada.
Efémero o trajecto entre o céu e a terra,
em nós, o pó antigo de dez mil séculos.
Na Lua, o coelho busca em vão o elixir da vida.
A árvore dos imortais é agora um montão de lenha.
Morre o homem, os ossos transformam-se em nada
ignoram os pinheiros verdes Primaveras e Outonos.
Olho para trás e suspiro,
olho para diante e suspiro.
Majestosas as nuvens
tão cedo desfeitas em nada.


Outro poema de essência taoista. A vida como uma simples passagem no regresso à morte. Esta consciência acompanha tanto os homens como os imortais. Árvores transformadas em cinzas, ossos transformados em nada, nuvens desfeitas. Não obstante esta consciência do inevitável, do efémero, a impotência na dor acompanha a jornada.

Sem comentários:

Publicar um comentário